Dar a sombra – Fabrício Carpinejar

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Olá mamães,
este texto foi publicado na revista Pais & Filhos, do mês de março. Eu, simplesmente, amei. Virei fã do jornalista Fabrício Carpinejar.
Dar a sombra
Pouco se fala da depressão pós-parto masculina.
Existe um medo de tocar no assunto. Como se fosse folclore e exagero. Mas é grave e desconfio que atinja 30% dos casados.
Todos temos um amigo que pulou fora de uma relação no momento em que virou pai. Antes de supor que é safadeza, talvez seja necessário reconhecer que é uma tendência perigosa.
Muitos pais não suportam o nascimento de seu filho. Muitos pais terminam o casamento quando o bebê ainda nem completou um ano.
Não é desamor, porém receio de não corresponder às exigências e frustrar os planos de família perfeita.
O homem se enxerga preterido pela sua mulher, substituído pela criança.
Alguns dos sintomas mais comuns são tristeza, desvalia, culpa, distúrbio de alimentação e de sono, irritabilidade, sensação de incompetência, anedonia e isolamento social.
É um mal silencioso, já que teoricamente ele não pariu seu filho. Mas o fato de não contar com uma gestação no corpo faz com que a mudança de realidade seja ainda mais abrupta e violenta.  Ele não se preparou para ser coadjuvante.
Acostumado à exclusividade da atenção durante o namoro e casamento, não se encaixa no rearranjo de forças domésticas, onde é obrigado a largar o cetro emocional e assumir uma condição de penumbra e de apoio.
Agora ele ajuda, não provê. Agora ele colabora, não ordena. Agora ele participa, não decide.  Agora ele observa, não age.
A mulher conserva o hábito ancestral de ouvir e atender pedidos, o homem não, quer falar acima de tudo. Na sua concepção, falar é ser. Infelizmente desconhece a zona privilegiada de admiração e aprendizado pela escuta.
A mulher tem maturidade para desaparecer e voltar, o homem não. É altamente carente e não admite sumir por um tempo, não respeita períodos de exceção e de maior cansaço. Não aceita sequer a queda do rendimento sexual do casal.
O problema é que ele não cobra o desconforto, não expõe suas fraquezas e dúvidas, e sim procura imediatamente outro relacionamento, sem nenhum dos novos encargos e responsabilidades. A infidelidade é sua saída de emergência, por absoluta incapacidade comunicativa e vergonha dos sentimentos.
Não é mesmo uma tarefa fácil. Natural escolher a fuga da realidade a admitir ciúme do próprio filho.
O período esplendoroso de descobertas do primeiro ano do rebento costuma ser o apogeu das separações: logo quando o pequeno começa a sorrir, a balbuciar, a engatinhar, a reconhecer a mãe.
A Renascença de gestos e fotografias infantis é a Idade Média do macho.
Na mentalidade do marido ou namorado, ele permanece trabalhando loucamente, só que desprovido das recompensas afetivas. O mimo e a dedicação estão totalmente concentrados no berço. O sujeito chega em casa e não vai relaxar, não será mais recebido com alarde e festa. É apenas mais um dentro da residência, e deve entrar na escala de horários de cuidados ao nenê: dividir a ronda, trocar as fraldas e aquecer o leite.
A situação piora se o homem percebe sua esposa como uma segunda mãe. Apesar do aparente discernimento adulto, ele sofrerá aquela inveja aguda que assola um irmão com a vinda de mais um herdeiro.
Mulher tem depressão pós-parto após dar luz ao seu bebê, e o homem tem depressão pós-parto ao dar a sombra ao seu bebê.
Fabrício Carpinejar, 40 anos, descobriu a receita da felicidade: sempre é aniversário quando acorda. Assim também nunca erra seu nascimento. Pai de dois filhos (Vicente e Mariana), autor de 22 livros, já ganhou os principais prêmios literários do país, como Jabuti duas vezes, Associação Paulista dos críticos de Arte e Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.
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Sobre Mães de Plantão

Sou jornalista de formação, blogueira por paixão, esposa e full time mom de uma belíssima dupla: Henrique e Joaquim; uma mamãe ocupada por opção e de coração! Mães de Plantão é um blog com conteúdo voltado especialmente para mães, gestantes ou ainda, apenas simpatizantes desse grande projeto de vida chamado “ter filhos”. Logo que me tornei mãe, surgiu a vontade de compartilhar dicas e informações que fossem úteis para outras mães, com opiniões colocadas de uma forma bem direta, leve, descontraída e acima de tudo, honesta. Todo o conteúdo é criado e selecionado com muito carinho antes de ser publicado porque sei o quanto ficamos felizes e aliviadas quando encontramos alguém para dividir os mesmos dilemas deste, imenso,universo infantil.. Este blog serve para ajudar as mães de primeira viagem que assim como eu, sonharam por este momento único em suas vidas e querem dar o melhor de sí para este novo ser, que de alguma forma nos torna uma pessoa melhor a cada dia. Tornam sim, não por mágica. Tornam-nos melhores porque se não queremos que gritem não podemos gritar. Porque se não queremos que mintam não podemos mentir. Porque temos de cumprir o que prometemos se queremos que o façam algum dia. Aprendemos depressa que se queremos que não façam não podemos fazer. Sim, os filhos têm esse dom. O dom de nos obrigarem a pensar no que fazemos.

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